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De Repente Já Nos...40!!!

O Que Vale É Que Dizem Que Os 40 São os Novos 30

De Repente Já Nos...40!!!

O Que Vale É Que Dizem Que Os 40 São os Novos 30

Retratos de Infância - O Campo

Continuando o directors cut. Este texto faz parte de uma trilogia sobre memórias gerais da minha infância que já foram escritas e rescritas há 2 anos. Nunca as publiquei porque achava que os textos eram muito longos, chatos de mais, não conseguiam transmitir o que eu queria e eram sobre assuntos muito batidos. Mas aqui fica o terceiro texto.

 

Se uma parte das férias eram passadas na praia, os outros meses eram passados no campo, na zona do Douro.

 

Até aos meus 10 anos, enquanto a minha bisavó foi viva, a casa era a original, daquelas muito antigas.

A cozinha era em baixo, com lareira, forno de lenha e uma grande arca para amassar o pão e as bolas (leia-se bôlas).

A casa propriamente dita era no andar superior, o chão de madeira estava todo esburacado, e só tinha três quartos. Às vezes éramos 12 lá enfiados, como nos distribuíamos já não me lembro. Sei que havia uma espécie de anexo na varanda e provavelmente um sofá na sala.

Por baixo eram as "lojas", a dos porcos, a dos coelhos, a de armazenamento e o lagar.

Ainda nos lavávamos com tinas e cântaros com água que se ia buscar à fonte. 

A casa tinha em frente uma eira, com uma latada por cima e em volta da casa eram os campos de cultivo. Passavam no máximo 1 ou 2 carros por dia.

A casa de banho era exterior, um anexo de madeira, com uma espécie de sanita também de madeira e sempre cheia de grandes e gordas aranhas. Ir à vinha era mais apetecível e como papel higiénico tínhamos as folhas das videiras.

 

A comida era quase toda cozinhada em potes de ferro. Os cheiros eram os da lenha a queimar e melhor comida não havia. Ao final da tarde começava a cheirar a salsichas, ovos e batatas fritas que acompanhavam as sopas. Bolas de fiambre, bacalhau e sardinha eram a especialidade da zona. E sempre que íamos visitar os tios-avós era certo que vínhamos de lá a rebolar. Tinha uma tia que devia ser mágica bastava chegarmos para ela fazer num abrir e fechar de olhos todas aquelas receitas que normalmente precisam de horas a levedar, bolas, filhós e ainda peixe frito e febras. As mesas eram ainda cheias de broa de milho, queijos e enchidos da zona. 

 

As brincadeiras eram diferentes da cidade, íamos buscar água à fonte, ovos aos galinheiros, lenha para a comida. Estávamos sempre na rua. Apanhávamos cenouras que lavávamos na água que corria para os campos e que comíamos de seguida, íamos ver as senhoras de joelho a lavar roupa no ribeiro e arranjávamos também algumas peças de roupa para lavar. Fazíamos corridas de carrinhos de mão, tomávamos banhos nas poças e corríamos por todo o lado.

Estávamos sempre enfiados na Quinta. A Quinta era uma das fornecedoras da Raposeira e nós tínhamos permissão para estar lá sempre enfiados, o caseiro era nosso amigo e só tínhamos que desaparecer quando vinha o Sr. Engenheiro. Foi lá que aprendi a andar de bicicleta.

Era na Quinta que havia o único telefone da zona. Quem queria falar connosco telefonava para lá e alguém  vinha-nos chamar. 

Era também lá que compravamos laranjada La Casera para os almoços de domingo e os pseudo-gelados Fá porque ali não havia lojas. 

 

Nas noites de quinta para sexta uma névoa envolvia o local. Havia quem dissesse ser da lixeira, outros diziam que era o lobisomem. Nos nossos passeios nocturnos, que eram apenas iluminados pelas estrelas e lanternas fazíamos muitas vezes por passar em frente da "Casa da Bruxa" só para sentir o friozinho na barriga.

 

Também era lá que víamos outras realidades. Com uma vida mais "aberta" do que nas cidades, assistiamos à vida real. Violência doméstica numa casa, um miúdo filho de um pai bêbado que lhe batia, que o iniciava no caminho do álcool e o punha a trabalhar na terra em tenra idade, a vizinha que era alcoólica e nós corríamos para ver as bebedeiras como se fossem um acontecimento, num misto de terror e diversão. (Mas a senhora acabou bem, melhorou de vida e ainda é viva.)

 

Na Páscoa era a visita do padre com a cruz a dar de beijar de porta em porta e que ia comendo e bebendo um bocadinho em cada lado porque não podia fazer a desfeita, acabando as visitas cada vez mais alegre.

 

E assim se passavam meses de férias numa altura em que os dias pareciam intermináveis.

 

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 Esta imagem nada tem a ver com o verão mas foi interessante tê-la encontrado na net dado serem os campos dos meus tios que se veêm lateralmente.

 

 

Terrorismo e Xenofobismo

Falava da ameaça terrorista à península ibérica com uma colega quando ela me diz:

 

- Mas os que estão cá vivem felizes e não querem confusões.

 

E eu, já a perceber ao que ela se estava a referir perguntei na brincadeira:

 

- Os terroristas que cá vivem são felizes?

 

Ao que ela me responde:

 

- Não, os muçulmanos.

 

Pois. Não. Não confundam por favor. Terroristas extremistas e muçulmanos nossos "vizinhos" não professam os mesmo valores. Houve, por exemplo, ataques durante o Ramadão e esta altura do ano é sagrada, é descrito como "Um tempo de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, da fraternidade e dos valores da vida familiar".

Já participei numa noite de ramadão e foi uma grande festa para amigos e familiares onde convivemos e comemos até rebolar.

 

Se agora um grupo de católicos resolvesse que era tempo de voltar às cruzadas e matar mouros, eu não queria ser confundida com eles. Não queria ser avaliada de igual para igual.

 

Dois dias depois do ataque ao Bataclan tive raiva de mim própria. Fui visitar uma tia ao hospital do Barreiro e na volta dentro do barco tive medo, tentei brincar com a situação mas não deixei de me assustar.

 

O barco vinha quase vazio e uns bancos atrás de mim, sentou-se um rapaz muçulmano a rezar, devia ser a hora da reza após o pôr do sol. 

 

Eu vi o moço a entrar, era jovem, estava vestido normalmente (tirando o turbante que o identificava), nada que pudesse esconder uma arma, e antes de entrar ficou a contemplar um anúncio. Tudo normal, nada de atitudes suspeitas. O barco também ia vazio, não fazia sentido um atentado. 

 

Mas tive medo e senti-me sobretudo racista. E eu não quero ser racista.

 

Confesso Que Sou Uma Pessoa Bastante Explosiva

Não de personalidade mas sim a um nível mais gastronómico. Entre as minhas explosões contam-se:

 

- Pastéis - Um dia vinha da piscina perto da casa do meu irmão e comecei a fritar pastéis para o almoço. Como estava calor continuei só com o biquíni vestido. Felizmente as minhas sobrinhas e o gato andavam por longe quando os crepes panados, recheados de queijo e fiambre resolveram explodir. Não me perguntem o porquê. Mas eu fiquei com algumas queimaduras que ainda demoraram uns meses a desaparecer e a cozinha ficou num belo estado. Algumas semanas depois a minha cunhada ainda achava recheio de crepe em sítios diversos.

 

- Beringela - Esta foi cá em casa e deu direito a um belo barulho explosivo que me ia provocando um ataque cardíaco. Já tinha assado beringela algumas vezes mas nunca me tinha passado pela cabeça fazer-lhe furos. Esta resolveu explodir mas vá lá que estava no forno. Não deu direito a queimaduras só a algumas horas a raspar o forno.

 

- Alheira - Se calhar por ser uma alheira vegetariana não me passou mais uma vez pela cabeça que devia de lhe fazer uns furos ou então foi só Karma por ter sujado a cozinha do meu irmão. Desta vez consegui fugir a tempo e não me queimei mas a limpeza da cozinha deu pano para mangas.

 

Para a próxima juro que vai ser de propósito, ando com vontade desde que li isto (acho aqui num blog) há uns meses:

 

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Medos Contemporâneos.

O terrorismo mete medo? Mete se nos pusermos a pensar que pode acontecer em qualquer lado sem estarmos à espera.

 

Mas ontem que reflecti mais concretamente reparei que o que me provoca mais receio é aquela ascensão inexplicável do Trump para ficar líder dos USA. 

 

Isso sim, mete-me muito medo. 

Director's Cut #3 - Retratos de Infância - A Praia

Continuando o directors cut. Este texto faz parte de uma trilogia sobre memórias gerais da minha infância que já foram escritas e rescritas há 2 anos. Nunca as publiquei porque achava que os textos eram muito longos, chatos de mais, não conseguiam transmitir o que eu queria e eram sobre assuntos muito batidos. Mas aqui fica o segundo texto.

 

Se 9 meses eram passados na cidade, os 3 meses das férias grandes eram ao ar livre.

 

A Costa e a praia da Torre ou Carcavelos eram o destino de eleição (nunca fomos muito de Algarve).

 

E íamos mesmo a sério, de manhã cedo, carro cheio de tralha, brinquedos, toalhas, chapéu-de-sol, roupas para mudar e claro a mala térmica recheada de pequeno-almoço, almoço e lanche. Se era para ir para a praia, era MESMO para ir para a praia.

 

Assim que chegávamos bebíamos leite com chocolate ainda morno e com aquele toque de sabor a plástico por estar guardado dentro de recipientes da célebre Tupperware e comiamos sandes de salsicha ou de ovo mexido. Para o almoço salada russa, pastéis de bacalhau, batatas fritas pala-pala, frango assado, pudins de chocolate ou outro sabor da Alsa. E para beber Tang ou uma bebida feitas de concentrado de fruta. 

 

Passávamos o dia dentro de água, perguntando-nos porque raio os adultos gostavam de ficar a esturrar ao sol. Fazíamos castelos, fossos, buracos e pontes. Tínhamos baldes de formas variadas, regadores, pás e ancinhos, moinhos de água e várias traquitanas que davam uma trabalheira a limpar na volta.

 

Se fossemos para a praia de Carcavelos, à entrada do túnel havia os vendedores de pacotes de revistas sortidas de banda-desenhada e super-heróis. Eram sempre umas 4 ou 5 fechadas. Nunca sabíamos o que vinha lá dentro, às vezes vinha alguma que já tínhamos mas era raro.

 

A nossa perdição eram também os vendedores dos gelados:  "Olha o gelado fresquinho, há fruta ou chocolate" pregão que tanto gostávamos de imitar. Ou claro, as senhoras dos bolos que nos vendiam bolas-de-berlim, com uma tira de papel pardo para segurar, escolhidas depois de muito olhar para dentro da caixa de madeira com uma gavetinhas que se puxavam e que vinham recheadas também de mil folhas e outros bolos. Ficávamos a olhar deslumbrados com tanta escolha mas no fim a bola-de-berlim era sempre a vencedora.

 

As praias da Costa eram especiais sobretudo pelos seus nomes, praia do Rei, praia da Rainha, praia da Princesa, praia de Sereia, praia da Morena e pelo seu típico comboio que percorria estes lugares.

 

Quando íamos para Tróia era para ficar, alugávamos um aparthotel, tínhamos jardim e mini-golfe e lembro-me de dias em que eu e o meu irmão implorávamos "Hoje praia não. Por favor". Tal era o fartote da dita.

 

Fora das recordações de praia outra das grandes recordações de Verão da malta de Oeiras era uma furgoneta de gelados que chegava à hora do lanche. Com uma música característica que se ouvia ao longe, logo ficávamos em pulgas a pedir dinheiro aos pais ou avós para ir comer um daqueles gelados moles, de chocolate, morango ou baunilha que saiam de uma máquina, enchiam um cone e ainda levavam caramelo por isso.

 

Bons tempos em que só tínhamos que decidir fruta ou chocolate e a nossa única grande ambição era brincar com a bola gigante da Nívea.

 

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Bo(rboleta) Tem Mel

A borboleta do Ronaldo visitou-me na Feira Medieval de São Pedro de Penaferrim (e não me venham cá com conversas de traças) . Tive que dividir o meu hidromel com ela.

 

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Estavam duas estrangeiras a olhar embasbacadas quando tirei a foto, devem pensar que os portugueses têm algum pacto com borboletas.

Director's Cut #2 - Retratos de Infância - A Cidade

Continuando o directors cut. Este texto faz parte de uma trilogia sobre memórias gerais da minha infância que já foram escritas e rescritas há 2 anos. Nunca as publiquei porque achava que os textos eram muito longos, chatos de mais, não conseguiam transmitir o que eu queria e eram sobre assuntos muito batidos. Mas aqui fica o primeiro texto.

 

Cresci num bairro lisboeta situado entre Alcântara e Belém nas décadas de 70 e 80.

 

Tínhamos aulas de manhã, íamos a casa almoçar, fazíamos os trabalhos num instante, voltávamos para lanchar e ver desenhos-animados mas de resto estávamos sempre na rua até anoitecer. Os passeios eram largos e as estradas também eram nossas, de vez enquanto lá parávamos para um carro passar.

 

O bairro tinha quatro ruas que formavam todo um mundo onde nos movíamos.

Ao fundo da rua dos meus avós eram os armazéns da Regina. As cargas e descargas de chocolate enchiam aquela parte da rua de um cheiro maravilhoso, o sol derretia o pó de chocolate que se ia escapando das caixas e nós pisávamos aquele ouro negro. Todos sonhávamos ir lá pedir umas amostras mas nunca tivemos coragem.

Mas aqueles armazéns deram-nos o Rex, um pastor alemão que nos acompanhava nas brincadeiras. Era um cão com fama de mau mas que adorava crianças. Com ele sentíamos-nos protegidos.

 

No prédio da minha avó os vizinhos eram à antiga, ao lado vivia um casal muito selecto, daqueles com quem só trocávamos bom dia e boa tarde. 

Com os vizinhos de baixo era a loucura total, eu e o meu irmão tratávamos os senhores por avós, andávamos sempre dentro e fora. O senhor era de origem espanhola e eram os mais abastados do prédio. Enchiam-nos de prendas que vinham de Espanha, brinquedos, roupa,  torrão, caramelos e outras guloseimas.

Esta minha "terceira avó" nunca saia de casa. Nunca percebi bem o porquê mas acho que era devido ao peso. Quando queria falar com a minha avó, abria a porta de casa e gritava o nome dela enquanto batia palmas. 

Sempre que lhe caia algum objecto dizia-me: "Não te importas de apanhar porque eu engoli um garfo e não me consigo dobrar" e lá ficava eu a imaginar um garfo enorme alojado na barriga da senhora e a picá-la sempre que ela tinha que se dobrar.

Ao lado deles vivia outro casal amoroso, a senhora tinha sempre bolachas deliciosas. Era frequente ver as três vizinhas, a minha avó do 2º direito e as senhoras do 1º andar em alegre cavaqueira na escada. 

 

De vez enquanto tocavam à campainha e lá vinha o "maluquinho" de serviço pedir esmola. Enquanto subia a escada gritava várias vezes "A ESPANHA VAI CASAR", não me perguntem o porquê deste grito de guerra, até hoje ninguém sabe.

 

Na rua para além das brincadeiras habituais com o elástico, escondidas, apanhada, bota Botilde, cantigas acompanhadas de jogos de mão, jogo da macaca e futebol, o ano ia-se dividindo em épocas de brincadeiras. A dos campeonatos de carrinhos, a dos campeonatos de berlindes e a das figas, aquela em que tínhamos receio de sair à rua.

 

E depois tínhamos as lojas que povoavam o bairro e cujo ocupantes eram conhecidos pelo nome e profissão. O Sr. Martins era o merceeiro, morava no prédio da minha avó e tinha a loja anexada. Ainda vendia as mercadorias a avulso, a peso e enroladas em papel pardo. A vizinha do 1º direito que nunca saia à rua baixava uma cesta pela janela com um fio que voltava carregada com as compras.

 

Tínhamos ainda o sapateiro (um dos últimos que ainda resiste), o barbeiro, a padeira gordinha e rosadinha que abria a loja de madrugada e depois às 17h em ponto com pão fresco para o lanche.

 

Na rua paralela aos meus avós era um verdadeiro centro de comércio, a leitaria (o que eu gostava do cheiro daquela loja) onde comprávamos os chocolates da Regina, a drogaria, a cabeleireira que era o meu terror, uma senhora bastante neurótica que me puxava o cabelo e arranhava o couro cabeludo com as suas unhas bastante compridas, fiquei anos e anos traumatizada com cabeleireiros. E as irmãs capelistas (as outras resistentes) que vendiam um pouco de tudo, roupa, acessórios, revistas, livros de quadradinhos, cadernetas, cromos, borrachas de cheiro que eram a minha perdição e outro material escolar para além de uma vasta colecção de bugigangas que comprávamos para oferecer no Natal e enchiam os móveis dos nosso pais e avós.

 

Outra figura mítica era a Beatrizinha, como era conhecida no bairro, uma pianista anteriormente conceituada que infelizmente terminou a sua vida na miséria mas sempre amante dos seus animais.

 

E era este o universo da minha infância. Um bairro hoje a abarrotar de carros em vez de crianças.

 

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Director's Cut#1 - Coisas Que Me Dizem #5

O primeiro director's cut

 

Ao ir pela primeira vez a casa de uma amiga no ano passado. Acho que não o publiquei porque achei isto mesmo parvo e foi ficando. Ela andava há bastante tempo a queixar-se que andava a passar demasiado tempo no computador e não tocava na casa:

 

Amiga - Ainda bem que vens assim vestida. Está a condizer com a minha casa que está toda dessarumada e suja.

 

Eu -  Mas eu tomei banho hoje.

 

Amiga - Estava a falar do teu ar de hippie.

 

Oh pá, até ia toda orgulhosa com este vestido novo da Natura.

 

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Director's cut

Fui agora aos meus rascunhos e descobri lá bastante material com vários meses, não publicado. Porque não estava completamente satisfeita com aquilo ou nem sei bem porquê.

 

Por isso nesta chamada Silly Season, preparem-se para o director's cut aqui do blog...os textos jamais publicados (até agora ).